Carreira 204 – Curso 24

Aqueles primeiros dias frequentando a faculdade foram mesmo muito estranhos. Com recém completados 18 anos, e com muito orgulho de finalmente pertencer à tudo aquilo, me deparei com uma realidade jamais vivida pelos meus pais e avós.
É claro que os meus pais já sabiam que o povo daquela universidade era, por vezes, meio maluco. Era o que estava nos jornais. Mas um ano antes meu irmão já havia ingressado no curso de física, e estava indo tudo muito bem. E se a pequena com seus cabelos recém pintados de azul mantivesse todos os valores que cultivou através da família e da igreja, as coisas certamente correriam muito bem. Ok, confesso: sei que os meus pais e avós, e até o pároco da igreja, sabiam que eu também não era lá muito normal. Afinal de contas, passar no vestibular foi relativamente fácil…
O difícil mesmo foi se adaptar à nova realidade. Primeiro tinha a distância: levava duas horas pra chegar na faculdade, o que significava sair às seis da manhã de casa, o que significava que eu ia chegar lá ainda com sono, o que, é claro, resultava quase sempre em atraso.
Mas o mais complicado era entender aquela gente, os meus coleguinhas. Eu achava muito estranho topar com algum coleguinha saindo de seu Peugeot 207 novinho em folha com aquela cabeleira bagunçada, camiseta esgarçada e chinelas havaianas. Jamais que eu sairia com aqueles trapinhos, inda mais pra ir à Universidade! Podia até ir à igreja daquele jeito, mas à Universidade? Jamais, pensava. Tudo bem que, seu eu saísse daquele jeito, era bem capaz do povo do trem me oferecer alguma esmola, já que era esse o meio de transporte que eu costumava usar para chegar à faculdade.
E tinha as festas, os happy-hours… num rolava né? A pessoa aqui levava outras duas horas pra voltar pra casa, e ninguém era lá do “meu pedaço” pra oferecer carona, exceto o Vlad, mas ele nem sempre ia pra casa. Fora a grana que ia embora nesses passeios. Eu abri mão do meu emprego pra poder cursar Arquitetura, enquanto alguns de meus coleguinhas nunca haviam batido ponto. Mas eles não pareciam se preocupar com isso, até me emprestariam uma grana pra eu tomar cerveja com eles, ou pra pegar o trem de volta pra casa, mas eu achava aquilo muito estranho, sabe? Coisa de pobre, mesmo.
Daí que, pra quem estava desempregada e não recebia mesada, aquele curso era mesmo caro. “Mas você tem a sorte de estar cursando uma faculdade pública, num tá pagando nada!” “Aham, claro. Foi sorte mesmo e não estou pagando nada, nem você!”, eu dizia. Mas apesar disso, minhas maquetes econômicas nem eram tão ruins em aparência ou execução. Talvez em projeto, mas essa já é outra história dramática, deixemos de lado.
Mas sabe o que era bom? Eu sabia que lá ninguém tava nem aí pra minha aparência ou as minhas roupas. Meu cabelo azul, minhas bolsas de crochê e a minha sandalinha de couro faziam sucesso! Já no meu pedaço ou lá na Igreja, sei que quem causava estranheza nas pessoas era eu.

Octacilia Coutinho

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One response

21 06 2010
Suzana

Que história!




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